Estágio de observação: a Escola como território do Educar e do aprender –
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Curso: Pedagogia
40 horas
PORTFÓLIO REFLEXIVO DE EVIDÊNCIAS ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO — A ESCOLA COMO TERRITÓRIO DO EDUCAR E DO APRENDER
Unidade 1
ESTÁGIO DE OBSERVAÇÃO DO AMBIENTE ESCOLAR – PEDAGOGIA
Aula 1
O que é o Estágio Supervisionado?
O que é o Estágio Supervisionado?
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Estagiário,
Boas-vindas ao
Estágio de Observação do Ambiente Escolar
! Neste primeiro momento da sua
formação docente, você será convidado a conhecer a escola para além do olhar de estudante,
observando seus espaços, relações, organização e função social. Esta experiência será o início
da sua aproximação com a realidade educacional e permitirá que você desenvolva um olhar
investigativo, reflexivo e comprometido com a prática docente.
Este é o seu material de estágio. Aqui, você encontrará todas as informações e conteúdos para a
realização do seu primeiro estágio. Nele, vamos refletir sobre a escola como um espaço de
ensino e aprendizagem. Este material está organizado em três aulas, com todas as orientações
necessárias para você!
Leia-o por completo a fim de compreender toda a sua trajetória aqui. Se tiver dúvidas, os
mediadores e orientadores de estágio estarão à sua disposição para auxiliá-lo!
Apresentamos os três momentos que compõem o seu estágio: os momentos síncronos e
assíncronos com o orientador; as atividades a serem realizadas no campo de estágio, ou seja, na
escola; e, por fim, a organização de seu portfólio.
Momento O que você faz
1. Orientação com o orientador
Encontros síncronos e assíncronos de
alinhamento (4h): boas-vindas e leituras
obrigatórias, ética e Termo de Compromisso,
apresentação das pautas e validação final do
portfólio.
2. Atividades a campo (Aula 2)
Observação sistemática na escola: leitura do
ecossistema, observação em sala pelas
Pautas 1 a 3 e registro no diário de campo.
Total de 30h presenciais. Até 6h por dia
cerca de 5 visitas, a depender da carga horária
diária a ser realizada pelo estagiário.
3. Organização do portfólio (Aula 3)
Organização das evidências, redação da
síntese reflexiva (muro ou ponte) e montagem
do portfólio final para postagem no AVA (6h).
Total da disciplina: 40h (4h + 30h + 6h).
Importante:
você só pode iniciar as visitas com o Termo de Compromisso assinado e aprovado
no portal. No campo, o limite é de até 6 horas por dia.
As atividades que você vai realizar
São quatro atividades que geram as entregas do seu portfólio, além dos momentos de
orientação.
Atividade O que fazer Entrega no portfólio
Orientação
Participar dos quatro
momentos de orientação
síncrona e assíncrona com o
orientador. Ficha de avaliação do
orientador
Atividade 1, Aula 1
Leitura dos textos e produção
de texto reflexivo. Entrega 1 — Texto reflexivo
Atividade 2, Aula 2
Mapear a escola como
ecossistema: elaborar o
Mapa Mental Institucional. Entrega 2 — Mapa mental do
funcionamento da escola
observada
Atividade 3, Aula 2
Observação em sala de aula,
por meio das pautas de
observação. Entrega 3 — Diários de campo
Disciplina
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ESCOLA COMO TERRITÓRIO DO
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PEDAGOGIA
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PEDAGOGIA
A quantidade de observações
dependerá da carga horária
diária realizada pelo
estagiário.
Produção da cápsula de
conhecimento com síntese
Atividade 4, Aula 3
reflexiva sobre a
problematização do estágio.
Bons estudos!
Ponto de Partida
Entrega 4 — Cápsula + síntese
reflexiva
Problematização
Você já parou para pensar por que escolheu estar aqui? No início da faculdade, o desejo de “ser
professor” geralmente nasce de uma vontade de transformar vidas. Mas, na prática, onde essa
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transformação acontece? O movimento das crianças nos corredores e no pátio, os avisos nos
murais, as conversas entre professores e funcionários, a organização dos ambientes e a forma
como as pessoas se relacionam revelam muito sobre a identidade da instituição.
O professor não é uma ilha. Ele é o coração de um ecossistema complexo. Neste estágio, sua
missão é olhar para além da lousa e do giz e investigar:
O ser docente:
como o professor que você observa articula saberes? Como a identidade dele
transparece no jeito de falar, de olhar e de acolher cada estudante?
O fazer docente:
ensinar é um ato político e técnico. Como esse professor navega entre as leis
(LDBEN/BNCC), as demandas da gestão e as necessidades reais daquelas crianças?
O seu lugar no futuro
: ao observar esse ecossistema, pergunte-se: “Neste mapa que estou
desenhando, onde eu me vejo? Que tipo de presença eu quero ser nesse ecossistema — alguém
que apenas ocupa um espaço ou alguém que faz a vida ao redor florescer?”.
A sua pergunta norteadora é:
a escola que você visita é um muro que limita o potencial desses
estudantes ou uma ponte que os conecta com o futuro? E você, está se preparando para ser um
construtor de muros ou um arquiteto de pontes?
Leve essa pergunta consigo ao longo de todo o estágio!
Na Aula 3, na Atividade 4, você retornará a ela, respondendo-a a partir das experiências
vivenciadas aqui!
Vamos Começar!
No texto a seguir, apresentamos as principais diferenças entre o Estágio Supervisionado
Obrigatório e o estágio remunerado.
Você sabe o que é o estágio?
Imagine alguém que quer aprender a nadar e, para isso, lê todos os livros sobre natação, assiste
a vídeos, decora os movimentos do nado crawl… mas nunca entra na piscina. Essa pessoa sabe
sobre nadar — mas ainda não sabe nadar. Com a docência acontece algo parecido: as teorias, os
autores e as legislações que você estuda são indispensáveis, mas a profissão de pedagogo só se
aprende, de fato, no encontro com a escola real, com crianças reais, em situações reais.
O
estágio é a sua entrada na piscina
— com uma diferença importante: você não entra sozinho.
Entra acompanhado de professores experientes, com profundidade progressiva e com um plano
de trabalho como este para orientar cada braçada.
Antes de mergulhar, porém, vale responder com precisão à pergunta do título. Afinal, o que é — e
o que não é — o estágio? O que diz a lei? E o que dizem as Diretrizes Curriculares Nacionais
(DCN) do seu curso?
1. O que diz a lei: o estágio é um ato educativo
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PEDAGOGIA
O estágio no Brasil é regulamentado pela
Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008
— conhecida
como Lei do Estágio —, atualizada pela Lei nº 14.913, de 2024. Logo em seu art. 1º, ela define o
estágio como
ato educativo escolar supervisionado
, desenvolvido no ambiente de trabalho, que
visa à preparação para o trabalho produtivo e para a vida cidadã. Repare na ordem das palavras:
antes de qualquer coisa, o estágio é educativo. Ele faz parte do seu projeto pedagógico de curso,
integra o seu itinerário formativo e existe para que você aprenda.
Dessa definição decorrem algumas garantias e regras que protegem você:
O estágio não cria vínculo empregatício
(art. 3º): você não é funcionário da escola, e, portanto,
não pode cobrir falta de professor, assumir turma sozinho, cumprir jornada de trabalhador.
Há sempre três partes envolvidas:
você, a instituição de ensino e a escola concedente, unidas por
um documento chamado
Termo de Compromisso de Estágio (TCE)
. Sem ele, não há estágio
regular.
Supervisão dupla:
a lei exige um professor orientador na sua instituição e um supervisor na
escola concedente — você nunca está “solto” no campo.
Seguro contra acidentes pessoais
e compatibilidade entre as atividades do estágio e o seu curso
são obrigatórios.
Jornada limitada
: o estagiário deve cumprir a carga horária semanal prevista em lei: 6 (seis)
horas diárias e 30 (trinta) horas semanais.
Estágio obrigatório e estágio remunerado: qual é a diferença? A Lei nº 11.788/2008, em seu art. 2º, distingue duas modalidades — e é muito importante que
você não as confunda:
Estágio obrigatório Estágio não obrigatório
(remunerado)
O que é
Componente curricular do
curso, definido no projeto
pedagógico. É requisito para
aprovação e obtenção do
diploma — é o caso DESTE
estágio que você inicia agora.
Atividade opcional, que você
pode buscar por conta
própria para ganhar
experiência e renda,
somando-se à sua carga
formativa.
Remuneração
Não prevê o auxílio de bolsa
ou remuneração.
Bolsa (ou contraprestação) e
auxílio-transporte são
compulsórios por lei.
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Vínculo com o curso
Segue o plano de trabalho, a
carga horária e os campos
definidos pelas DCN e pelo
curso; é acompanhado,
avaliado e registrado em
portfólio.
Deve ser compatível com a
sua área de formação e
formalizado por TCE, mas
não substitui as horas do
estágio curricular obrigatório.
Em resumo: você pode (e muitos estudantes fazem!) ter um estágio remunerado em uma escola
durante a graduação — é uma experiência valiosa. Mas
as horas do Estágio Curricular
Supervisionado Obrigatório são insubstituíveis
: elas têm intencionalidade formativa própria,
supervisão acadêmica e registro específico. Um não anula nem substitui o outro.
2. Mitos e verdades sobre o estágio
“Estágio é só burocracia para pegar o diploma.” —
Mito.
O estágio é, segundo as DCN, a ponte
entre o currículo acadêmico e a sua futura atuação profissional. É no estágio que a teoria ganha
rosto, nome e sala de aula.
“O estagiário substitui o professor.” —
Mito.
A Resolução CNE/CP nº 4/2024 é explícita: o
estagiário não será o principal responsável pela regência das aulas e, quando assumir atividades
docentes, estará sempre acompanhado do professor regente e supervisionado pela instituição
(art. 13, § 2º).
“Estágio é trabalho.” —
Mito.
As DCN de 2024 afirmam que o Estágio Curricular Supervisionado
não é uma atividade laboral: é um componente da sua formação, desenhado como experiência
de aprendizagem e socialização inicial na profissão (art. 13, § 1º).
“O estágio da licenciatura pode ser feito a distância, já que meu curso tem atividades on-line.” —
Mito.
Mesmo nos cursos ofertados na modalidade a distância, o Estágio Curricular
Supervisionado deve ser realizado
integralmente de forma presencial
(Resolução CNE/CP nº
4/2024, art. 14, § 5º). A escola se aprende estando nela.
“Começo a estagiar só no fim do curso.” —
Mito
(e talvez a maior novidade!). As DCN de 2024
determinam que as horas de estágio sejam distribuídas ao longo de todo o curso,
iniciando
desde o primeiro semestre
, com progressão da observação para a atuação (art. 13, § 5º). É
exatamente por isso que você está lendo este plano agora.
3. O que dizem as DCN sobre o estágio no seu curso
Duas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) conversam diretamente com o seu percurso de
estágio:
As DCN do curso de Pedagogia (Resolução CNE/CP nº 1/2006)
já estabeleciam o estágio como
componente central da formação do pedagogo, a ser realizado ao longo do curso,
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prioritariamente na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, mas também
em outros espaços de atuação — disciplinas pedagógicas do Ensino Médio na modalidade
Normal, Educação de Jovens e Adultos, gestão de processos educativos e reuniões de formação
pedagógica (art. 7º e art. 8º, IV). A ideia é ampliar o seu repertório: o pedagogo atua em muitos
territórios, e o estágio deve apresentá-los a você.
As novas DCN da Formação de Professores (Resolução CNE/CP nº 4/2024)
deram ao estágio
um desenho ainda mais robusto. Ele constitui um núcleo próprio do currículo — o
Núcleo IV —
Estágio Curricular Supervisionado
, com
400 horas
distribuídas desde o início do curso — e é
definido como a ponte entre o currículo acadêmico e o espaço de atuação profissional do futuro
professor (art. 13, IV; art. 14, § 1º). A resolução detalha como essa ponte deve ser atravessada:
Progressão cuidadosa:
começa-se pela observação, com protocolos claros, e avança-se
gradualmente para a atuação docente acompanhada (art. 13, § 5º, II).
Articulação com as disciplinas:
cada semestre de estágio tem focos definidos, conectados às
disciplinas de prática de ensino (art. 13, § 5º, III).
Acompanhamento duplo:
supervisão de um docente do curso e mediação de profissionais de
referência da escola, que acolhem e dialogam com o estagiário (art. 13, § 5º, IV e V).
Devolutivas constantes:
múltiplas oportunidades estruturadas de observar, discutir, atuar e
receber retorno sobre a sua atuação (art. 13, § 5º, VI).
Registro em portfólio:
todo o seu desenvolvimento — observações, reflexões críticas,
planejamentos, relatos de experiência — fica documentado no Portfólio de Estágio (art. 7º, XVII),
que será o seu grande companheiro nesta jornada.
4. E agora? O seu ponto de partida
Agora você já sabe: o estágio é um
ato educativo protegido por lei
, um
componente curricular
obrigatório e insubstituível
e, segundo as próprias Diretrizes, a
ponte
entre tudo o que você
estuda e a profissional ou o profissional que você está se tornando. Neste primeiro semestre, a
travessia começa pelo gesto mais importante de quem aprende:
observar com intenção
.
Você pode acessar o aqui conteúdo em formato de História em Quadrinhos (HQ).
Siga em Frente
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ESCOLA COMO TERRITÓRIO DO
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PEDAGOGIA
Os dois textos a seguir fundamentam a
Atividade 1
de seu portfólio.
Leitura 1
DCN 2006, DCN de 2024 e BNCC: a escola como território do
educar e do aprender
1. Para começar: por que esta leitura abre o seu estágio?
Você está iniciando o Estágio Curricular Supervisionado logo no primeiro ano do curso de
Pedagogia — e isso não é por acaso. A Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024, que
institui as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para a formação de professores,
determina que o estágio tenha suas horas distribuídas ao longo de todo o programa de
formação, desde o início do curso, com uma progressão cuidadosa: primeiro, atividades de
observação, orientadas por protocolos claros; depois, gradativamente, atividades em que o
licenciando assume ações docentes (Brasil, 2024, art. 13, § 5º).
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PEDAGOGIA
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ESCOLA COMO TERRITÓRIO DO
EDUCAR E DO APRENDER
PEDAGOGIA
Isso significa que o seu primeiro movimento como estagiário não é ensinar: é
olhar
. Mas
ninguém olha para a escola com olhos neutros. Todos nós fomos estudantes durante muitos
anos e carregamos imagens, lembranças e julgamentos sobre o que a escola é e sobre o que ela
deveria ser. O objetivo desta leitura é oferecer a você lentes teóricas e legais para qualificar esse
olhar: compreender a escola como
território do educar e do aprender
e refletir sobre a sua
função
social
, à luz de três marcos fundamentais — as DCN do curso de Pedagogia de 2006, as DCN da
formação docente de 2024 e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — e do pensamento de
autores que se dedicaram a essa questão.
Ao final do texto, você encontrará as orientações para produzir a sua reflexão escrita, que deverá
ser anexada ao Portfólio de Estágio.
2. A escola como território do educar e do aprender
A palavra território pode parecer, à primeira vista, emprestada da Geografia — e é. O geógrafo
Milton Santos (1994; 2000) nos ensina que o território não é apenas o chão, o espaço físico
delimitado: é o território usado, isto é, o espaço apropriado e transformado pelas pessoas que
nele vivem, trabalham, disputam sentidos e constroem identidades. O território é, portanto,
espaço de relações — e é exatamente assim que devemos compreender a escola.
A escola não é o prédio, os muros, as carteiras enfileiradas. A escola é um espaço socialmente
produzido: nela circulam culturas, histórias de vida, conflitos, afetos, regras explícitas e regras
silenciosas. Viñao Frago e Escolano (1998) mostram que até a arquitetura escolar “ensina”: a
disposição das salas, dos pátios, dos murais e dos horários expressa uma determinada
concepção de educação, de infância e de disciplina. Quando você entrar na escola como
estagiário, observe:
o que aquele espaço diz antes mesmo de qualquer professor falar?
Miguel Arroyo (2000) acrescenta uma dimensão essencial: a escola é um tempo-espaço de
humanização
. Nela não se aprendem apenas conteúdos; aprendem-se modos de ser, de conviver,
de participar da vida coletiva. Por isso, dizer que a escola é território do educar e do aprender é
reconhecer que educação e aprendizagem não acontecem em abstrato: acontecem em um lugar
concreto, habitado por sujeitos concretos — crianças, jovens, adultos, professores, gestores,
famílias, funcionários —, em um determinado bairro, com uma determinada história e
determinadas condições sociais.
Paulo Freire (1989; 1996) sintetiza essa ideia ao afirmar que a leitura do mundo precede a leitura
da palavra:
Os estudantes chegam à escola carregando saberes, experiências e uma leitura própria da
realidade. Respeitar esses saberes e, ao mesmo tempo, alargá-los, é parte do que torna a escola
um território vivo de aprendizagem — e não um espaço de mera transmissão.
3. A função social da escola: o que dizem os autores
Se a escola é um território, qual é a sua função na sociedade? Essa pergunta atravessa a história
da educação e recebe respostas diferentes — e, por vezes, conflitantes.
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PEDAGOGIA
Para Dermeval Saviani (2011), na perspectiva da pedagogia histórico-crítica, a função primordial
da escola é a
socialização do saber sistematizado
:
A escola existe para garantir que todos — e não apenas alguns — tenham acesso ao
conhecimento elaborado, científico, artístico e filosófico que a humanidade produziu. O que
justifica a existência da escola é justamente aquilo que não se aprende espontaneamente na
vida cotidiana.
Em diálogo com essa posição, o sociólogo inglês Michael Young (2007), ao perguntar “para que
servem as escolas?”, responde com o conceito de
conhecimento poderoso
:
A escola é a instituição capaz de oferecer aos estudantes — sobretudo aos mais pobres — um
conhecimento que eles dificilmente adquiririam em casa ou na comunidade, e que lhes permite
compreender e transformar o mundo. Negar esse conhecimento é aprofundar desigualdades.
José Carlos Libâneo (2012) alerta para um risco contemporâneo: a constituição de um dualismo
perverso, em que se consolida uma escola do conhecimento para os ricos e uma escola do mero
acolhimento social para os pobres. Para o autor, acolher é necessário, mas não basta:
A função social da escola pública se cumpre quando ela
democratiza o conhecimento e promove
aprendizagens efetivas para todos
, articulando qualidade social e justiça curricular.
Vitor Henrique Paro (2016), por sua vez, vincula a função social da escola à
apropriação da
cultura
em sentido amplo — conhecimentos, valores, arte, ciência — e defende que essa função
só se realiza plenamente em uma escola gerida democraticamente, na qual estudantes, famílias
e comunidade participam das decisões.
A gestão democrática, prevista na própria legislação educacional brasileira, não é um detalhe
administrativo: é condição da função social da escola.
Paulo Freire (1996) adiciona a dimensão ética e política:
Educar é prática de liberdade, e ensinar exige a convicção de que a mudança é possível.
A escola, nessa perspectiva, forma sujeitos críticos, autônomos e capazes de intervir na
realidade — não apenas mão de obra ou bons cumpridores de tarefas.
E António Nóvoa (2022) atualiza o debate ao propor três verbos para a escola pública do nosso
tempo:
[…] proteger
(a infância, o direito de aprender),
transformar
(as práticas, os espaços, os modos de
ensinar) e
valorizar
(os professores e o conhecimento profissional docente).
Note que, com ênfases distintas, esses autores convergem em um ponto: a escola tem uma
função social
insubstituível
, ligada ao direito de todos ao conhecimento, à cidadania e à
humanização. É com esse pano de fundo que podemos, agora, ler os marcos legais.
4. O que dizem os marcos legais
4.1 As DCN de 2006: a escola como organização complexa e a docência ampliada
A Resolução CNE/CP nº 1, de 15 de maio de 2006, instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais
para o curso de graduação em Pedagogia, licenciatura, e estruturou a identidade do curso que
você está cursando. Dois pontos merecem destaque para a nossa reflexão.
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Primeiro, a definição de
docência
como ação educativa e processo pedagógico metódico e
intencional, construído em relações sociais, étnico-raciais e produtivas (Brasil, 2006, art. 2º, § 1º).
Ensinar, portanto, nunca é um ato meramente técnico: é um ato situado em um território social.
Segundo, ao definir o que é central na formação do pedagogo, a resolução afirma, em seu art. 3º,
parágrafo único, inciso I:
O conhecimento da escola como organização complexa que tem a função de promover a
educação para e na cidadania (Brasil, 2006, art. 3º).
Essa formulação é preciosa: a escola é uma organização complexa — com gestão, currículo,
relações, normas, cultura própria — e sua função é promover a educação
para
a cidadania
(preparar para a vida cidadã) e
na
cidadania (sendo, ela mesma, um espaço de exercício
democrático). Além disso, as DCN de 2006 ampliaram o horizonte de atuação do pedagogo para
a docência na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, a gestão de
processos educativos e a produção de conhecimento, em espaços escolares e não escolares
(Brasil, 2006, arts. 4º e 5º).
As DCN de 2024: a formação docente e o estágio como ponte
A Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024, instituiu novas Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Formação Inicial de Profissionais do Magistério da Educação Escolar Básica,
organizando os cursos de licenciatura em torno de uma
base comum nacional
e de quatro
núcleos formativos: Estudos de Formação Geral; Aprendizagem e Aprofundamento dos
Conteúdos Específicos; Atividades Acadêmicas de Extensão; e Estágio Curricular Supervisionado
(Brasil, 2024, art. 13).
Para o nosso tema, dois aspectos são fundamentais. O primeiro, a concepção de estágio. A
resolução define o Estágio Curricular Supervisionado como
componente (disciplina) obrigatório
,
realizado em instituição de Educação Básica, planejado para ser a ponte entre o currículo
acadêmico e o espaço de atuação profissional do futuro professor, conectando
progressivamente teoria e prática — inicialmente por meio da observação e, aos poucos, pela
atuação direta em sala de aula (Brasil, 2024, art. 13, IV). O estágio não é atividade laboral: é uma
experiência de aprendizagem e de socialização inicial na profissão (Brasil, 2024, art. 13, § 1º). É
por isso que a sua primeira tarefa é observar e refletir — e não substituir o professor regente.
O segundo, o registro. As DCN de 2024 determinam que o desenvolvimento do licenciando no
estágio seja registrado em documentação adequada — o
portfólio
ou recurso equivalente —,
reunindo observações, reflexões críticas, planejamentos e relatos de experiência (Brasil, 2024,
art. 7º, XVII). A reflexão que você produzirá ao final desta leitura é, exatamente, a primeira peça
desse portfólio: o registro do seu olhar inicial sobre a escola.
A BNCC: direitos de aprendizagem e compromisso com a educação integral
A Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018b) é o documento de caráter normativo que
define o conjunto de
aprendizagens essenciais
que todos os estudantes brasileiros têm o direito
de desenvolver ao longo da Educação Básica. Ela se organiza em torno de dez
competências
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PEDAGOGIA
gerais
, que articulam conhecimentos, habilidades, atitudes e valores — do pensamento científico,
crítico e criativo à empatia, à cooperação e ao exercício da cidadania.
Para a nossa reflexão, o ponto-chave é este: ao definir aprendizagens como direitos,
a BNCC
reposiciona a função social da escola
. A instituição deixa de ser pensada como espaço de
oportunidades para alguns e passa a ser concebida como a
responsável por garantir as
aprendizagens essenciais a todos
, com
equidade
— reconhecendo que os estudantes são
diferentes, partem de pontos distintos e precisam de percursos diferenciados para alcançar
direitos iguais. Além disso, a BNCC assume o compromisso com a
educação integral
: o
desenvolvimento do estudante em suas dimensões intelectual, física, afetiva, social, ética, moral
e simbólica. Há aqui um eco direto das ideias de Saviani (2011), Young (2007), Libâneo (2012) e
Freire (1996) que vimos na seção anterior: a escola como território onde o direito ao
conhecimento e à formação humana plena se realiza — ou se nega.
5. Articulando os três marcos: a escola que você vai observar
Colocados lado a lado, os três documentos contam uma história coerente. As
DCN de 2006
definem a escola como organização complexa cuja função é promover a educação para e na
cidadania, e formam um pedagogo capaz de atuar na docência, na gestão e na pesquisa. As
DCN
de 2024
exigem que esse profissional conheça criticamente os marcos normativos e os
contextos reais das escolas, e fazem do estágio — desde o primeiro semestre — a ponte entre a
universidade e o território escolar. A
BNCC
explicita o conteúdo dessa função social: garantir, a
todos, direitos de aprendizagem e desenvolvimento, na perspectiva da educação integral.
Quando você realizar suas primeiras visitas e observações, procure enxergar a escola com essas
lentes. Algumas pistas de observação:
O território:
onde a escola está situada? Como é o entorno? Quem são as famílias e a
comunidade atendidas? O que o espaço físico da escola comunica?
As relações:
como se dão as interações entre professores e estudantes, entre gestão e docentes,
entre escola e famílias? Há espaços de participação e de gestão democrática?
O educar e o aprender:
o que a escola parece priorizar — o acolhimento, o conhecimento, ambos?
As aprendizagens parecem ser tratadas como direito de todos ou como privilégio de alguns?
A cidadania:
em que momentos a escola educa para a cidadania (conteúdos, projetos, valores) e
na cidadania (práticas democráticas vividas no cotidiano)?
Seu texto deve ter entre duas e três páginas, redigido em linguagem formal, com citação dos
documentos e de ao menos um autor estudado, conforme as normas da ABNT. Lembre-se: essa
reflexão é o ponto de partida do seu percurso. Ao final do curso, você poderá relê-la e perceber o
quanto o seu olhar sobre a escola se transformou






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